Gigante de pés de barro e pedrinha que rola da montanha. Por Frei Gilvander Moreira[1]
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O profeta Daniel, escultura de Aleijadinho, no adro da Basílica de Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas, MG. |
Na Bíblia, o livro de Daniel é um escrito apocalíptico, profecia em
outros moldes. O livro de Daniel foi escrito provavelmente no 2º século antes
de Cristo, época em que o rei Antíoco IV estava empurrando goela abaixo do povo
a cultura grega e para isso era preciso pisar na cultura popular, nos valores e
costumes do povo semita hebraico. Daniel objetiva cultivar a esperança em
tempos de grandes projetos transnacionais e visa sustentar a resistência contra
os opressores. O livro de Daniel, nos capítulos 1 a 6, mostra como ele e os
seus companheiros resistiram aos poderosos do império e, assim, foram salvos. Quando
o maior inimigo se torna internacional e, por isso, invisível, a profecia muda
de tática e de estratégia: prioriza a linguagem simbólica. Daniel carrega uma
profunda convicção de fé: o maior poder é o de Deus que está no volante da
história. Todos os outros poderes, por maiores que sejam, mesmo que pareçam
invencíveis, podem ser derrubados pelos que acreditam na força infinita do Deus
da vida, dos nossos ancestrais, dos mártires e de todos os lutadores e
lutadoras da história que agem em nós e a partir de dos injustiçados/as (Dn
2,31-47).
O profeta Daniel anima o povo a manter a identidade e a cultura camponesa,
os valores oriundos do deserto – lugar onde o povo foi gestado e assumiu o
Decálogo como sua Constituição – que define, por exemplo, que “ser vegetariano e não comer carne” é o
caminho para a libertação/salvação. A resistência inicia-se pela comida e pela
valorização das culturas populares e ancestrais. Ético é não comer a comida do
império, mas a comida de verdade - alimentos saudáveis -, que é a dos nossos
pais, avós, bisavós, nossos ancestrais (cf. Dn 1).
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Ídolo de pés de barra sendo derrubado por uma “pedrinha que vem da montanha”. |
No capítulo 2 de Daniel (Dn 2,1-49) está a
narrativa bíblica de uma estátua gigante de pés de barro desmoronada por uma
pedrinha que rola da montanha. O rei Nabucodonosor treme na base por causa de um sonho enigmático.
Assustado, o rei exige que os considerados sábios – magos, astrólogos,
agoureiros e advinhos – digam a ele qual foi o sonho que ele teve e a
interpretação do sonho. “O rei nos exige
algo sobrehumano”, dizem. Diante da negativa dos “sábios”, o rei ordena
pena de morte para todos. Condenado à morte, Daniel pede um prazo para
interpretar o sonho. Em uma visão, Deus revela o mistério do sonho a Daniel,
que fica grato (Dn 2,20-23). Levado diante do rei, Daniel desmascara o pretenso
poder dos sábios, astrólogos, magos e adivinhos. Diz ele: “Não são capazes de desvendar o segredo que Vossa Majestade lhes propôs.
Mas há no céu um Deus que revela os segredos” (Dn 2,27-28). Trata-se de
luta pela afirmação do Deus do povo escravizado e o desvencilhamento dos ídolos
de todos os impérios. Daniel contou ao rei o que acontecerá nos últimos dias,
no futuro.
Eis a visão: era uma grande estátua, alta e muito brilhante. Ela estava
bem à frente de Vossa Majestade e tinha aparência impressionante. Cabeça de
ouro maciço, o peito e os braços de prata, a barriga e as coxas de bronze, as
canelas de ferro e os pés, parte de barro e parte de ferro (Cf. Dn 2, 31-33).
Eis que uma pedrinha rolou da montanha e caiu nos pés da estátua gigante e os
quebrou. Tudo virou palha, pó. A pedrinha se transformou em uma enorme
montanha. O profeta Daniel deu a seguinte interpretação: “Vossa Majestade, rei dos reis, é a cabeça de ouro. Após Vossa
Majestade, aparecerá outro reino, menor que o seu, depois, um terceiro, de
bronze. O quarto reino será duro como ferro, mas esse reino terá pés de barro e
ferro, forte por um lado, mas fraco, por outro; reino recheado de contradições
e mentiras. Por isso, se desmoronará. Deus suscitará um reino que nunca será
destruído. Esse reino é o da pedrinha que rolou da montanha sem ninguém tocá-la
e esmigalhou o que era de barro, ferro, bronze, prata e ouro” (Dn 2,37-45).
O capítulo 2 de Daniel termina dizendo que o rei prostrou-se diante
dele e reconheceu a sua profecia. Tentou cooptá-lo propondo fazê-lo governador
de todas as províncias/colônias do império babilônico, mas ele não aceitou,
porém sugeriu que o poder fosse exercido por outras lideranças da sua
confiança. Assim a profecia, com autonomia, seguiu seu caminho.
Em contextos políticos de poderosos aparentemente insensíveis exercendo
o poder, pretendendo ser onipotentes e invencíveis, é tremendamente
revolucionário afirmar como fez o profeta Daniel que o único poder é o de Deus,
dos ancestrais, dos mártires e dos lutadores e lutadoras da história que atuam
no povo de luta que resiste no presente. Assim, o profeta Daniel deslegitima e
desmascara os pretensos poderosos e afirma outro poder que não é o exercido por
nenhum ser humano metido a ser messias. Mas, segundo a Teologia da Libertação,
o único poder que Deus tem é o poder do amor, pois “Deus é amor”, o amor é Deus.
Logo, o poder do Deus da vida está em nós, permeia e perpassa a trama das
relações humanas e sociais. O divino está no humano. Junto com o povo, jamais
sozinho, Deus governa a história. Sem a participação humana tecendo novas relações
sociais e construindo instituições com o poder democratizado, não é possível
fazer desmoronar os podres poderes. A beleza espiritual da profecia de Daniel,
a estátua gigante e a pedrinha, é dizer: a última palavra será da vida, da
liberdade e não dos podres poderes. Isso suscita esperança e faz a luta de
resistência dos injustiçados continuar.
O eixo da literatura apocalíptica de caráter
histórico é o confronto Império versus
Povo. Por isso, a teologia apocalíptica é sempre teologia política libertadora.
A literatura apocalíptica é também uma literatura de esperança que se cultiva
na luta por direitos. Sempre se anuncia o juízo de Deus, que põe fim à situação
de opressão. O fim será a destruição da estátua gigante e a instauração do
Reino de Deus a partir da luta dos/as pequenos/as e explorados/as.
No capítulo 2 de Daniel o reino de Deus, que é reino da justiça, da
paz, da solidariedade entre as pessoas e de respeito a toda a biodiversidade, é
simbolizado por uma pedrinha que se desprende da montanha – lugar de encontro
com o Deus verdadeiro, com o próximo, consigo mesmo e com todas as criaturas - aparentemente
sem intervenção da mão humana e destrói a estátua gigantesca que representa os
impérios do passado, do presente e do futuro e que, depois de destruí-la, se
transforma em uma grande montanha que enche toda a terra.
O termo "pedra sem mãos' no texto aramaico de Daniel significa
"pedra sem poder”: a força dos empobrecidos na luta. A pedrinha que se
desprende da montanha e destrói a estátua representa o povo dos mártires e nos
lembra todas as conquistas libertárias havidas na história. Assim, os 400 mil
mártires, não apenas da pandemia da covid-19, mas principalmente da política
fascista e genocida do inominável presidente com o todo o desgoverno federal,
com a cumplicidade de 70% do Congresso Nacional e a maioria do Supremo Tribunal
Federal, derrubarão, um a um, todos cúmplices do genocídio em curso no Brasil.
Bendito quem continua atirando pedrinhas “a partir da montanha” nos pés de
barro do gigante recheado de contradições e mentiras que devasta o povo
brasileiro e o nosso território.[2]
Frei Gilvander ao lado dos 12 profetas no adro da Basílica de Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas, MG. |
Em tempo: O profeta Daniel e os outros 11 profetas esculpidos por Aleijadinho em Congonhas, MG, estão sendo corroídos pela ferrugem causada pela poeira tóxica da mineração da CSN – mesmo ar que a população respira - que já devastou grande parte da Serra da Casa de Pedra e construiu uma barragem gigante de lama tóxica que está, como uma espada de Dâmocles, sobre cabeça de milhares de pessoas que resistem abaixo da barragem. O Ministério Público, em relatório que avalia os impactos da expansão da mineração, denuncia: "O depósito de partículas de poeira (decorrentes da mineração) no conjunto dos profetas do adro da Basílica de Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas, MG, contribui para a degradação do conjunto escultórico de autoria do mestre Antônio Francisco Lisboa (Aleijadinho), sem esquecer dos prejuízos causados pela poluição atmosférica à saúde da comunidade local", no Patrimônio Cultural da Humanidade, reconhecido em 1985. Além de corroer os profetas, a mineração está devastando a paisagem que emoldura os profetas de Aleijadinho. À esquerda no adro da Basílica, o profeta Joel tem o olhar fixo no Morro do Engenho e o encara 24 horas por dia, repudiando a devastação que a mineradora CSN segue fazendo de forma brutal. Eis um exemplo do gigante da mineração em Minas Gerais que precisa ser paralisada para o bem do povo, da mãe terra, da irmã água, da fauna, da flora e de toda a biodiversidade. Os doze profetas e o Morro do Engenho, em Congonhas, MG, precisam ser preservados e a mineradora CSN deve ser expulsa. Eis o que pede de nós Daniel, Joel e os outros dez profetas.
28/04/2021
Obs.: Os vídeos nos links, abaixo, ilustram o assunto
tratado acima.
1 - Faísca de Dom André de Witte, PRESENTE sempre em nós na
luta pelo reino do Deus no meio do povo
2 - “Rodoanel/RODOMINÉRIO de Belo Horizonte e RMBH devastará
a APA da Lajinha, em Rib. Neves” – Vídeo 10
3 - As brutais contradições do Projeto de Rodoanel de Belo
Horizonte e RMBH. Por Euler Cruz - Vídeo 8
4 - "Devastação de 1.000 árvores na Mata do Havaí em
Belo Horizonte." Frei Gilvander e morador - 21/4/21
5 - Frei Gilvander aponta brutal devastação socioambiental
que Rodoanel causará em BH e RMBH - Vídeo 5
6 - Liberdade e luta ainda que tardias: Massacre de Ipatinga,
Luta Indígena e Lutas Sociais
[1]
Frei e padre da Ordem dos carmelitas; doutor em Educação pela FAE/UFMG;
licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo
ITESP/SP; mestre em Exegese Bíblica pelo Pontifício Instituto Bíblico, em Roma,
Itália; agente da CPT, assessor do CEBI e Ocupações Urbanas; prof. de
“Movimentos Sociais Populares e Direitos Humanos” no IDH e de Teologia bíblica
no SAB (Serviço de Animação Bíblica), em Belo Horizonte, MG. E-mail: gilvanderlm@gmail.com
– www.gilvander.org.br
– www.freigilvander.blogspot.com.br
– www.twitter.com/gilvanderluis
– Facebook: Gilvander Moreira
III
[2]
Gratidão à Carmem Imaculada de Brito, doutora em Sociologia Política
pela UENF, que fez a revisão deste texto.